quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O aiatolá dos ateus

Richard Dawkins

O aiatolá dos ateus

Richard Dawkins é o líder de uma nova cruzada, desta vez contra Deus

Para expor esse ponto de vista o cientista inglês, professor de compreensão pública da ciência na Universidade de Oxford, publicou no final de 2006 Deus, um Delírio. O livro, que chega este mês às livrarias brasileiras, é um grande manifesto ateu - mas, ironicamente, acabou se tornando um presente de Natal bem popular em países de língua inglesa. Nele, Dawkins afirma que as religiões não são só coisas sem sentido, como monstros de espaguete voadores. Elas também são altamente prejudiciais à sociedade.

"Meu grande sonho é a completa destruição de todas as religiões do mundo", dispara, com sua voz tranqüila, depois de dois minutos de entrevista. A Super conversou com o cientista em sua confortável casa de tijolinhos na cidade inglesa de Oxford onde, sentado no sofá e vestido como um perfeito inglês, de paletó, camisa social e colete de lã, ele completou o raciocínio: "Mas eu sei que isso é ambicioso demais.

Na verdade, eu quero atingir as pessoas que estão em cima do muro. Pensando no assunto, talvez elas percebam que não são religiosas". Radical ateu Dawkins é considerado um dos mais importantes intelectuais do mundo e um dos mais famosos divulgadores de assuntos científicos. Ele já publicou 8 livros, que venderam centenas de milhares de cópias e foram traduzidos em mais de 25 línguas, começando pelo best seller O Gene Egoísta, de 1976.

Do gene ao gênesis

O livro revolucionou a área de biologia evolutiva ao explicar a Teoria da Evolução de Darwin pelo ponto de vista dos genes. De acordo com sua perspectiva, a seleção natural não favorece os organismos mais adaptados à sobrevivência, mas, sim, os genes mais eficientes em se multiplicar. Depois que Darwin provou que os seres humanos não foram criados à imagem e semelhança de Deus - eles evoluíram a partir de animais mais simples -, Dawkins tirou os animais, as plantas e os seres vivos em geral do papel de protagonistas da evolução, afirmando que nós não passamos de máquinas de sobrevivência projetadas pelos genes. Agora volta sua bateria para Deus.

A maior parte das religiões afirma que estamos sendo acompanhados de perto por um ser superior e que isso dá sentido à nossa vida. Uma imagem tão confortante quanto sem sentido, na opinião de Dawkins."Existe um propósito na nossa existência, que é a propagação do DNA. Pode não parecer muito nobre, porque não é o tipo de objetivo que as pessoas procuram", explicou em uma entrevista à BBC. Criado em um lar anglicano, Dawkins descobriu que era ateu aos 17 anos, quando se convenceu de que a Teoria da Evolução de Darwin explicava o mundo muito melhor do que qualquer religião. Mas, só agora, aos 65 anos, decidiu se dedicar de corpo e alma (ops!) a uma cruzada pela ciência e contra o obscurantismo.

Seu objetivo é combater o poder crescentedas religiões como forças absolutas e inquestionáveis - cita como exemplos o fundamentalismo islâmico e o que ele chama de talibã cristão nos EUA. "Supostamente os EUA são um Estado desvinculado de religião, mas George W. Bush está levando o país na direção de uma teocracia, dizendo que fala com Deus e que Deus lhe disse para invadir o Iraque", afirma.

O último iluminista

Para combater esse tipo de atitude, criou a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência, que "tem como objetivo defender a ciência contra os ataques da ignorância organizada", definição que inclui tanto os defensores do ensino de criacionismo quanto as pseudociências (astrologia, homeopatia, ufologia etc.). A fundação pretende financiar pesquisas sobre a psicologia das crenças, apoiar a educação científica e ajudar a divulgação de idéias racionais.

Ele é o primeiro a reconhecer que suas opiniões são polêmicas. "Se você colocar meu nome no Google, vai encontrar um equilíbrio: há coisas muito negativas escritas por gente religiosa e coisas muito positivas escritas por gente não religiosa", se diverte. Ocorre que até entre os ateus existe gente que discorda de suas idéias, como o físico brasileiro Marcelo Gleiser.
"Acho que o Dawkins escreveu um livro provocativo para polarizar ainda mais as tensões entre ciência e religião, o que é inútil", reclama. "As pessoas se sentem ameaçadas pela ciência, achando que ela vai 'matar' os deuses. É essa distorção que os cientistas devem combater, e não a fé. A ciência não quer roubar Deus de ninguém", diz Marcelo.

Não há paz

Bem, não é bem isso que Richard Dawkins pensa. Ele discorda radicalmente da posição liberal de ateus como o paleontólogo Stephen Jay Gould, que afirmava que religião e ciência são assuntos que não se misturam e podem coexistir em paz, cada um ocupando partes diferentes da vida (e da mente) humana. Para Dawkins, isso não passa de duplipensamento, a técnica descrita por George Orwell no livro 1984: acreditar em duas coisas conflitantes ao mesmo tempo.

No caso, o Gênesis e a Teoria do Big-Bang. Em sua opinião, essa posição conciliadora mais atrapalha do que ajuda. Quem não se opõe abertamente às religiões ajuda, com sua omissão, a fortalecer o poder que elas já têm. Ainda assim ele nega que seja um radical: "As pessoas acham isso porque já se acostumaram a falar de religião sempre pisando em ovos", argumenta. "É possível questionar e discordar de alguém sobre economia, esporte ou qualquer outro assunto. Quando se trata de religião, é proibido falar qualquer coisa."

Em termos: as religiões vêm, sim, sendo questionadas em vários livros sobre ateísmo lançados recentemente. Dawkins faz parte desse movimento, ao lado de pensadores como os americanos Daniel Dennett (autor de Quebrando o Encanto) e Sam
Harris (autor de O Fim da Fé). Em sua casa é possível ver várias dessas obras, que são citadas em Deus, um Delírio, pelas estantes, em cima das mesas e até mesmo no banheiro.

Movimento dos sem-deus

O cientista compara a situação dos ateus hoje em dia com a dos homossexuais nos anos 50. Para mostrar o preconceito contra as pessoas sem religião, ele cita uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup em 1999. Segundo o levantamento, 95% dos americanos votariam em uma mulher para presidente, 92% em um negro ou judeu e 79% em um homossexual. Mas
apenas 49% colocariam um ateu na Casa Branca."Enquanto o número de judeus nos EUA é muito menor do que o de ateus, eles são muito mais poderosos, pois foram capazes de se organizar e criar lobbies políticos para defender seus interesses", diz Dawkins. "Os ateus americanos, que são entre 20 milhões e 30 milhões, não fazem isso."

Na verdade, é difícil até mesmo perceber que a quantidade é tão grande, porque muitos deles evitam manifestar publicamente sua ausência de crenças. "Muita gente veio me agradecer por ter escrito o que elas não tinham coragem de dizer", se anima Dawkins. "Apesar de não ter escrito o livro pensando nessa conseqüência, agora eu acho que talvez a melhor coisa que ele pode fazer pelas pessoas é encorajá- las a sair do armário."

Ao que parece, a porta do armário foi arrombada: uma pesquisa feita em 2006 pela companhia Harris Interactive mostra que menos da metade dos ingleses, dos alemães e dos espanhóis crêem em Deus ou em algum tipo de ser supremo. Na França, são apenas 27% da população. No Brasil os números ainda são bem diferentes, mas dá para perceber que alguma coisa está ocorrendo (apesar de o questionário do IBGE não incluir a opção "ateu"). No censo de 1991, o número de pessoas que disse não ter religião foi de 4,7%. Já em 2000 esse percentual foi de 7,4%. Para Richard Dawkins, a pior coisa das religiões é a idéia de fé.

Andar com fé

A simples idéia de acreditar em algo que não pode ser provado é capaz de tirá-lo do sério - o que significa, para um britânico tão educado, levantar uma das sobrancelhas. "Fé é algo em que você acredita sem evidência. Pior: quanto mais absurdo o artigo de fé, mais virtuoso é o fato de se acreditar nele." Dawkins crê que a aceitação de dogmas pode levar a sérios problemas. "Disputas entre crenças incompatíveis não podem ser resolvidas com argumentos racionais", disse à revista online americana Salon.

"Cientistas discordam entre si usando fatos e evidências para decidir quem está certo. Mas é impossível argumentar racionalmente se você simplesmente sabe que o seu livro sagrado contém a verdade absoluta dita por Deus, e a pessoa do outro lado pensa a mesma coisa sobre o próprio livro. Não surpreende que, ao longo da história, fanáticos religiosos tenham lançado mão de torturas,execuções, cruzadas, jihads e guerras santas."

Para saber mais

Deus, um Delírio
Richard Dawkins, Companhia das Letras, 2007.
Quebrando o Encanto
Daniel Dennett, Globo, 2006.
O Fim da Fé
Sam Harris, Tinta da China, Portugal, 2007.

domingo, 22 de agosto de 1999

Antifundamentalistas

CIÊNCIA
Retirada da evolução de provas escolares no Kansas reacende debate sobre ciência e religião
Antifundamentalistas
Divulgação
O biólogo britânico Richard Dawkins, autor de "O Gene Egoísta"


RICARDO BONALUME NETO
especial para a Folha

Cientistas eminentes divergem sobre qual deve ser o relacionamento entre ciência e religião e sobre as incursões predatórias dos fanáticos religiosos na divulgação da ciência.

O debate voltou à tona após a retirada, no início do mês, da teoria da evolução darwiniana dos currículos escolares obrigatórios no Estado de Kansas, no centro dos EUA, por pressão de protestantes fundamentalistas. Mas a discussão também se alimenta das posições aparentemente mais liberais da Igreja Católica.

O paleontólogo Stephen Jay Gould, autor de vários best-sellers tendo a evolução como principal tema, é um dos que defende uma linha conciliatória, apesar de ser um constante crítico dos fundamentalistas e ter participado ativamente das querelas jurídicas no final dos anos 70.
Nessa época, os chamados "criacionistas" queriam que sua doutrina religiosa sobre a origem da vida -uma leitura literal da Bíblia- fosse adotada como uma teoria científica rival ao evolucionismo. A Justiça americana foi contra essa pretensão.

O mais recente livro de Gould trata do tema ("Rocks of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life"); e em revistas como a semanal "Time", ou a porta-voz dos céticos americanos, "Skeptical Inquirer", ele defende que religião e ciência são esferas de conhecimento "complementares".

Para o paleontólogo, os dois campos estão totalmente separados -a ciência é a busca do conhecimento factual sobre o mundo natural, e a religião é a procura de sentido espiritual e de valores éticos. Para ele, essa separação implica que nenhuma teoria científica constitui ameaça à religião.

Gould, em sua coluna na revista "Natural History", afirmou que "a rede da ciência cobre o universo empírico: do que ele é feito (fato) e por que ele funciona assim (teoria). A rede da religião se estende sobre questões de sentido moral e valor".

Já Richard Dawkins, biólogo e também autor de best-sellers, critica esse tipo de atitude. "Uma flacidez covarde do intelecto aflige pessoas de outra maneira racionais quando confrontadas com religiões longamente estabelecidas", disse referindo a Gould.

Para Dawkins, a separação não é tão nítida assim. Ele lembra que até mesmo a Bíblia não é utilizada como a autoridade suprema em questões de moral pelos próprios fundamentalistas que defendem que ela foi diretamente escrita por inspiração divina.

Na prática, diz ele, as pessoas só pegam da Bíblia trechos mais atraentes -como o sermão da montanha- e ignoram os mais desagradáveis -como o "dever" de matar adúlteras a pedradas ou castigar até netos de criminosos.

"Existe algo de oportunista e desonesto na tática de alegar que todas as crenças religiosas estão fora do domínio da ciência. De um lado, histórias de milagres e a promessa de uma vida após a morte são usadas para impressionar pessoas simples, ganhar convertidos, e inchar as congregações", afirmou Dawkins em um artigo na revista científica "Quarterly Review of Biology".

"É precisamente seu poder científico que dá a essas histórias seu apelo popular. Mas ao mesmo tempo é considerado um golpe abaixo da cintura se sujeitarmos as mesmas histórias aos rigores ordinários da crítica científica: esses são assuntos religiosos e portanto fora do domínio da ciência", continua o biólogo.

Para Dawkins, doutrinas como a virgindade de Maria, a sua assunção ao céu, ou a ressurreição de Jesus são alegações de natureza científica que poderiam ser investigadas. "Ou Jesus teve um pai corpóreo ou ele não teve. Isso não é questão de "valores" ou de "moral", é questão de sóbrio fato."

Dawkins afirma que não quer dizer que a doutrina da assunção de Maria seja necessariamente falsa ("embora eu ache que seja"); está apenas refutando a alegação de que ela estaria fora do domínio da ciência como quer Gould.

"Ou o corpo de Maria deteriorou-se quando ela morreu, ou foi fisicamente removido deste planeta para o céu" -ou seja, diz ele, "a assunção da virgem é transparentemente uma teoria científica", já que também se trata de uma afirmação sobre um evento do mundo natural.

quarta-feira, 1 de outubro de 1997

O papa da ciência

O papa da ciência
Sem alarde, João Paulo II revê 400 anos de preconceitos da Igreja e reconcilia a religião com o mundo da razão





NORTON GODOY

Quando João Paulo II desembarcar no Aeroporto do Galeão, na tarde desta quinta-feira, 2 de outubro, para uma visita de quatro dias ao Rio de Janeiro, os brasileiros poderão fazer uma curiosa comparação com o papa que passou 12 dias no País em julho de 1980 e nove dias em outubro de 1991. Na aparência, o cardeal Karol Wojtyla, hoje com 77 anos, é um homem fisicamente menos vigoroso. No discurso, João Paulo II será o mesmo, se não até mais enfático, defensor dos valores tradicionais da família – da crítica ao aborto à pregação da fidelidade e indissolubilidade do casamento. Na política, ele ganhou a briga contra o bloco comunista e, na Igreja, isolou os bispos vinculados à teologia da libertação e liberou os carismáticos para servirem de ponta-de-lança na guerra para conter o avanço dos evangélicos e fundamentalistas. Mas, após 19 anos de papado, existe uma face menos conhecida do Vaticano de João Paulo II. Nos últimos 12 meses, o papa saltou o abismo de quatro séculos que separavam religião e conhecimento científico. "A ciência pode purificar a religião do erro e da superstição", declarou recentemente. "A religião pode purificar a ciência da idolatria e do falso absolutismo. Cada uma pode conduzir a outra para um mundo mais amplo, onde possam florescer."





"A ciência pode purificar a religião do
erro e da superstição"
Papa João Paulo II

O substancial avanço no trato deste assunto foi sinalizado no final de 1996 num anúncio oficial da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, que assessora o papa em assuntos não-religiosos. O próprio João Paulo II se encarregou de declarar que a teoria da evolução – o processo de seleção natural dos seres vivos identificado por Charles Darwin em 1859 – "é mais do que uma hipótese". Parece pouco, mas significa que, para a Igreja, o homem deixou de ser um modelo de barro que ganhou vida por um ato divino. A partir de agora, as escolas católicas podem perder o constrangimento de ensinar na aula de religião a criação descrita na Bíblia, enquanto o professor de biologia diz que o homem é parente do macaco. "A idéia de que a teoria da evolução contrariava as escrituras era muito ignorante", admite o padre Paul Schwiezer, da PUC do Rio de Janeiro. "O Gênesis foi escrito como um mito da criação baseado na idéia que o povo daquela época fazia de Deus."





"O infinito do cosmo inspira uma busca científica que se aproxima
de Deus"
Dom Estevão Bittencourt

O papa da ciência voltou a se mostrar em janeiro deste ano, quando formalizou o tardio perdão ao astrônomo Galileu Galilei (1564-1642), que contrariou a tese da Igreja de que o Sol girava em torno da Terra. Mas esta nova política de conciliação com os cientistas nunca se mostrou tão bem quanto na discussão sobre a ovelha Dolly, o clone que fez, pela primeira vez, o homem superar a natureza na geração de um ser vivo. Como grande parte de autoridades e pesquisadores, o Vaticano se mostrou contrário à clonagem de pessoas. Mas nada disse sobre a cópia de animais.

Sob João Paulo II fez-se uma Igreja ligada à Internet e um papado conectado às técnicas de marketing. Os mais conservadores podem indagar que diabos aconteceu com a Igreja Católica, mas talvez fosse mais sensato responder a outra pergunta: o que se passa na cabeça dos cientistas? Mais do que uma guinada da religião em direção à comunidade acadêmica, o que está mudando é a posição dos cientistas em relação à fé. Uma pesquisa feita este ano pela Universidade da Geórgia (EUA) e publicada em abril na revista Nature revelou que 40% dos físicos e biólogos consultados nos Estados Unidos e na Inglaterra têm fortes crenças espirituais. Outros 45% não acreditam no Deus especificado no questionário, mas dizem ter ligação com algum tipo de divindade. Apenas 15% são agnósticos. Não é à toa que os escolhidos para a pesquisa sejam físicos e biólogos. Enquanto os primeiros investigam os limites da matéria e do universo, os outros cuidam do que a Igreja acreditava ser obra exclusiva de Deus: a vida.





Apesar de agnóstico, o astrônomo Carl Sagan defendeu a união entre ciência e fé

Há um mês, a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) lançou o "programa de diálogo com a religião". Em seguida surgiram o Centro de Religião e Ciência de Chicago e o Centro de Teologia e Ciências Naturais da Universidade da Califórnia. Segundo outra bíblia dos cientistas, a revista Science, eles nunca falaram tanto de Deus. Muitos admitem discutir suas crenças em público. É o caso do físico Charles Townes, que em 1964 recebeu o Nobel pela criação do raio laser. Em seu livro Making waves (Fazendo ondas), garante que ciência e religião não são forças opostas. "Nenhuma religião que está ancorada no mundo ocidental pode se dar ao luxo de ignorar a ciência", disse Townes a ISTOÉ. "Porém, a ciência não pode se dar ao luxo de ignorar Deus." Na sua visão, "a ciência quer saber o mecanismo de funcionamento do universo, enquanto a religião, seu significado". Ou seja, no final do século XX, período em que a ciência mais progrediu, os cientistas chegam a uma constatação quase singela: é como se a ciência mostrasse como funciona o céu e a religião, como chegar lá. E, entre eles, parece ser crescente o número dos que querem chegar lá. Segundo Townes, cientistas e religiosos estariam entrando em um ciclo de reconciliação porque enfrentam questões difíceis e ainda sem respostas, como "o que criou o universo?" ou "devem-se clonar humanos?" "Quanto mais sabemos sobre o cosmo e a evolução, mais esse conhecimento parece inexplicável sem um propósito inteligente", diz, sugerindo a idéia de um "criador".





O anti-religioso Hawking escreveu que a criação do universo "pode revelar a mente de Deus"

Em seu livro póstumo, Billions and billions, o astrônomo americano Carl Sagan (1934-1996) defende uma aliança entre ciência e religião, particularmente na discussão sobre o meio ambiente e os danos causados pelo homem. Já o físico britânico e conhecido "anti-religioso" Stephen Hawking termina seu Uma breve história do tempo (1988) apostando que o estudo do Big Bang (explosão que criou o universo) "poderá revelar a mente de Deus". Nos anos 20, o físico alemão Albert Einstein já havia proferido: "Deus não joga dados", ao negar a possibilidade de ocorrerem fatos aleatórios, idéia defendida pela física quântica.

A reconciliação entre ciência e fé procura achar respostas às indagações pessoais de grandes cientistas, mas também atende a interesses pragmáticos. Líderes católicos americanos tiveram de aceitar o pensamento científico para arrebanhar setores mais ilustrados da sociedade. A dogmática negação de descobertas incontestáveis da ciência servia mais para desmoralizar a Igreja do que para fortalecer a fé. Da mesma forma, vários catedráticos perceberam que a intransigência religiosa afasta de seus cursos jovens católicos talentosos. "Eles acham que alguém irá tentar destruir sua fé", aponta Francisco Ayala, geneticista da Universidade da Califórnia. "A principal razão para a baixa competência científica nas universidades é o temor de muitos estudantes com a ciência", conclui Ayala.





Para o biólogo Jay Golg, rever o amigo Sagan na eternidade é a melhor razão para aceitar a existência da alma

Mais pragmática ainda seria a justificativa econômica. No século XIX, a comunidade científica assumiu uma atitude combativa em relação à religião porque queria manter a sua independência na hora de obter recursos. "Muitas universidades eram então afiliadas às igrejas", explicou a ISTOÉ Arthur Peacock. Reitor da Universidade de Cambridge, Peacock largou a pesquisa para se tornar religioso – hoje lidera a Sociedade dos Cientistas Ordenados, com três mil associados. Agora, diz o seu colega Ayala, o conceito de independência é outro e todos sabem que uma atitude amigável em relação à religião pode ajudar a garantir os recursos. "A estrutura financeira da pesquisa americana depende da boa vontade de um grupo de políticos que valoriza a religião", explica o geneticista. Antagonizar a ciência com a fé religiosa não seria mais um bom negócio.

"Os cientistas que se manifestam contra Deus ultrapassam o limite do que a própria ciência já conseguiu provar. Interpretação é um outro assunto, é uma questão filosófica e teológica", afirmou Peacock. Ele abandonou a crença em Deus no início da carreira. "Hoje sou mais liberal e vejo a religião como um campo a explorar." O geneticista brasileiro Newton Freire-Maia, da Universidade Federal do Paraná, também voltou à fé após longa experiência como cientista ateu. Aos 79 anos, Freire-Maia conta que a sua conversão se deu após um encontro com um frade franciscano. "Quando menino, fui levado a acreditar que a Bíblia deveria ser interpretada ao pé da letra. O frade me convenceu de que a religião é muito mais livre do que eu pensava." O geneticista, que escreve um livro sobre as relações entre ciência e fé, avalia que metade de seus colegas é devota de alguma religião. "Não existe uma pesquisa sobre isso no Brasil, mas nossa porção de cientistas religiosos não difere muito do que acontece nos Estados Unidos ou na Europa."

A busca de respostas para as mesmas perguntas fundamentais, que hoje aproxima ciência e religião, já foi o mais forte motivo para o conflito entre as duas áreas. Em A dança do universo, o físico brasileiro radicado nos Estados Unidos Marcelo Gleiser expõe as razões históricas desse relacionamento conflituoso. "A humanidade sempre procurou modos de expressar seu fascínio pelo mistério da Criação", conta. "Dos mitos de criação do mundo de culturas pré-científicas às teorias cosmológicas modernas, a questão de por que existe algo em vez de nada inspirou e inspira o religioso e o ateu."

Durante séculos, a ciência compartilhou as posições da religião, como a crença de Ptolomeu, do século II, de que o Sol girava em torno da Terra. A partir da Idade Moderna, as respostas que os cientistas começaram a encontrar para as "questões fundamentais" contestavam as defendidas por Roma. Para combatê-los, a Santa Sé acionou a temida Inquisição. As vítimas mais famosas foram os astrônomos Galileu, condenado a prisão domiciliar, e Giordano Bruno, queimado na cruz. Dois séculos depois, o naturalista Charles Darwin não chegou a ser perseguido. Mas, como era profundamente religioso, a simples idéia de contestar a Bíblia com sua teoria da seleção natural o atormentou por toda a vida. Tanto que levou mais de 20 anos tomando coragem para publicar A origem das espécies – em 1871 suas diferenças com a Igreja se transformaram em polêmica pública com o lançamento de A descendência do homem, onde aponta o parentesco entre homens e macacos.

Darwin não foi o único que se sentiu dividido entre suas convicções científicas e sua fé. A história da ciência está cheia de exemplos famosos como os de Isaac Newton e Einstein. Mas, segundo a revista Science, esse tipo de tormento é cada vez menor em um número cada vez maior de cientistas. Para Francis Collins, geneticista do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano, "quando alguma coisa nova é revelada sobre o genoma, experimento um sentimento maravilhoso de satisfação ao perceber que a humanidade agora sabe alguma coisa que só Deus sabia antes". O genoma é a célula que guarda o código hereditário dos seres vivos. Para Collins, "muitos cientistas não sabem o que estão perdendo por não explorar seus sentimentos espirituais".

Essa referência ao lado "espiritual" da vida, contudo, já foi mais do que suficiente para deixar alguns de seus colegas de cabelo em pé. "Na cultura acadêmica pós-moderna, muitos cientistas ainda pensam que para ser levados a sério devem zombar da fé", argumenta David Scott, físico americano da Universidade de Massachusetts. Outros se prenderiam ao agnosticismo, segundo o qual a investigação científica deve refutar a fé enquanto não se descobrir uma evidência científica para o divino – tema explorado no filme Contato (leia reportagem à pág. 111). "A característica efêmera de muitas teorias científicas, agravada pela rapidez do avanço tecnológico, está diminuindo a prepotência dos cientistas", avalia André Porto, coordenador do Movimento Inter-religiosos do Instituto de Estudos da Religião, em São Paulo. Para dom Estevão Bittencourt, teólogo da PUC-RJ, "foram as próprias dimensões infinitas do cosmo que levaram os cientistas a buscar uma causa que se aproxima de Deus".

Numa posição mais conciliadora estão aqueles que não vêem nenhum conflito entre ciência e religião. É o caso de Stephen Jay Gould, da Universidade Harvard e um dos mais conhecidos divulgadores da ciência. Tanto ele acha isso que chegou a ficar intrigado com a declaração do papa João Paulo II sobre a teoria da evolução. "A Igreja Católica nunca se opôs à evolução", diz Gould. "Por que o papa precisou vir a público para reafirmar isso?", indagou em um artigo para a revista Natural History. Gould lembra que o papa Pio XII havia feito isso em 1950. Na encíclica Humani Generis, afirmava que os católicos poderiam acreditar no que a ciência determinasse sobre a evolução humana, desde que se aceitasse a participação de Deus no ato de infusão da alma no corpo da criatura. Mas a encíclica de Pio XII continha uma ressalva. A evolução só deveria ser aceita pelos católicos no momento em que fosse provada cientificamente. "Como dos anos 50 para cá ela foi comprovada diversas vezes, João Paulo II deve ter concluído que era tempo de avisar os católicos." Mesmo se definindo como um cético, Gould deixou escapar uma esperança religiosa ao homenagear o falecido amigo Carl Sagan. "Compartilhávamos a suspeita da inexistência da alma. Mas não vejo melhor razão para esperar que estejamos errados do que a perspectiva de passar a eternidade vagando pelo cosmo conversando com uma alma maravilhosa."

Colaboraram: Clarice Meireles (Rio de Janeiro), João Fábio Caminoto (Londres), Osmar Freitas Jr. (Nova York) e Sérgio Limolli (São Paulo)